“The mountain sad so the mountain cry.”
2D, no The Manifesto — The Mountain, o novo álbum do Gorillaz.
VAI TE FUDER. Eu senti que isso explicou alguma coisa dentro de mim. Que belo momento da música pra se estar vivo.
Vale falar sobre o The Manifesto por um segundo. Com o pouco que eu entendo de música: ela tem três atos. O primeiro começa nos tecladinhos, uma batida indiana, alguém cantando em espanhol, com o 2D aparecendo nos intervalos. Aí o mundo acaba — e ele volta com um trompete e um rap em contratempo, como se o cara estivesse declamando sobre a batida sem se preocupar com o tempo. O trompete segue no fundo, tem um crescendo, e você pensa que chegou no pico. Mas são três atos. O terceiro entra com um rap em espanhol, os metais marcando, strings de sintetizador ao fundo — e o 2D voltando a fazer segunda voz que, de repente, vira a primeira. É a epítome do que é o álbum inteiro.
O Gorillaz acertou a nostalgia de uma geração inteira. Não a nostalgia que paralisa — mas aquela que a gente usa como droga, sabendo do mal que fez nossos pais, convicto de que na gente não vai viciar. A gente não vai se afundar igual a eles. E mesmo assim fica ali, ouvindo Dirty Harry, pensando “caralho, eles sempre foram bons” — e provavelmente eram mesmo.
Eu mesmo fui desgarrando do Gorillaz depois do G-Sides. A banda seguiu reinventando, eu fui pro meu lado. Voltei pelo Cracker Island, que ouvi de verdade. Foi lá que encontrei o Benito pela primeira vez e pensei “caraca, MC Bin Laden, vai Brasil” — e era bom, mesmo.
The Mountain é outra coisa. É uma PUTARIA. E o que me impressiona é que estamos falando de mais de vinte anos de trabalho constante. A maioria dos artistas com esse tempo de carreira vira refém do próprio sucesso — fica repetindo a fórmula até ninguém mais aguentar. O Damon Albarn escolheu o caminho oposto. Cada álbum do Gorillaz soa como se ele tivesse recomeçado do zero sem esquecer o que construiu. Achei uma boa reinvenção.