Na adolescência eu tentava ser metaleiro com alguma convicção. Dava mais ou menos. A coleção de camiseta era convincente, o gosto pela guitarra distorcida era genuíno. O problema era a outra metade do meu MP4 chinês.
Enquanto fingia que só ouvia os subgêneros do rock aceitáveis no grupo — e olha que a barra era baixa, nu metal já dava trabalho — eu guardava uma segunda lista que não mostrava pra ninguém. Lá estavam Daddy Yankee, Don Omar, Tego Calderón. Brasil dos anos 2000, os primeiros Velozes e Furiosos no cinema, reggaeton grudado em tudo. Só música boa.
Nunca larguei de vez a música latina depois disso. Fui descobrindo outros caminhos: Orishas, Mercedes Sosa, Santana. Coisas que pegavam pelo ritmo ou pela história. E de uns anos pra cá, Bad Bunny.
O último álbum dele — DTMF — é estranho num sentido bom. Começa com um sample de Un Verano en Nueva York de 1975 e passa por salsa, cumbia, rumba, tudo misturado com batida atual. É um álbum fiel a si mesmo do começo ao fim.
A faixa título ficou famosa por razões que fazem sentido:
“Vamo’ a disfrutar, que nunca se sabe si nos queda poco.”
Simples assim. Funciona porque não está tentando ser mais do que é.
O adolescente que escondia o reggaeton teria gostado de saber que vinte anos depois ia estar ouvindo Bad Bunny de boa, sem precisar esconder de ninguém.